Respeite o Rei

Originalmente publicado no site da fera Julianne Cerasoli, jornalista especialista em Formula 1: https://juliannecerasoli.com.br/2021/01/09/respeite-o-rei/

Também chancelado pela lenda Reginaldo Leme (se ele falou ta falado): https://twitter.com/RegiLeme/status/1347900418496589824

Esse ano a Fórmula 1 escreveu na história o nome de mais uma lenda: Lewis  Hamilton. Não há exagero na afirmação. Superou os recordes de vitórias de  Schumacher e o igualou em títulos, se tornando em números o maior piloto da história  da categoria. Entretanto isso acontece no mesmo momento em que há também um  domínio técnico inédito da Mercedes, a equipe de Lewis. Por isso levantam-se tantas  dúvidas a respeito de Hamilton, seria ele o maior de todos os tempos ou é somente o  carro? Para responder, passemos por 3 pontos: história, técnica e origem. 

História 

Por que sobre Schumacher não pairam tantas dúvidas? O alemão surfou no domínio  da Ferrari para se tornar multicampeão, entretanto pouco se colocou em dúvida sua  técnica e habilidade. Sem falar que Schumacher nunca teve um companheiro de  equipe que fosse permitido enfrentá-lo, esse é o modo Ferrari. Ao contrário de Lewis  que durante toda a sua carreira, enfrentou grandes pilotos, como Alonso e Button, e  teve guerra aberta com seu ex-amigo Rosberg. Mesmo Bottas tem liberdade para  enfrentá-lo. Comparando as trajetórias desses dois multicampeões, não existe razão  para se duvidar mais de Lewis do que de Michael (este que possui o polêmico título  de 94). 

Outro fato que esquecemos é o percurso de Lewis. Nos tempos de kart até a Fórmula  2, empilhou títulos e performances incríveis. Iniciou na Fórmula 1 enfrentando como  companheiro de equipe ninguém menos que o espanhol Fernando Alonso, sensação  da época e vitorioso em cima de Schumacher. O então novato, fez frente de igual ao  espanhol, tendo empatado em pontos no campeonato (ficou na frente por outros  critérios). Já no ano seguinte foi campeão vencendo Massa na forte Ferrari (melhor  que a McLaren na época). Nos anos seguintes, com uma McLaren mais fraca,  conseguiu a incrível marca de vencer e fazer pole em todas as temporadas. Sempre  conseguiu ser competitivo com um carro inferior, fazendo exatamente o que Max faz  hoje na RBR. 

Ao longo da Fórmula 1 foram várias as corridas memoráveis. Algumas corridas na  chuva, manobras espetaculares e poder mental impressionante. Somente este 

ano, as principais foram no GP da Estiria, onde sob forte chuva cravou a pole 1.2  segundos à frente de Max (vencendo o GP) e o GP da Turquia, num misto de chuva  e falta de aderência, em um dos raros momentos de inferioridade da Mercedes.  Venceu por pura técnica, inteligência e frieza, largando da sexta posição. Como já  disse Reginaldo Leme, Hamilton é uma mistura dos grandes campeões Senna, Prost,  Mansell e Piquet, onde conseguiu fundir técnica, inteligência, agressividade e  conhecimento do carro em um único piloto. 

Técnica 

Lewis é um piloto rápido, mas muito rápido. Não é só capaz de fazer uma grande volta  para uma pole, uma de suas marcas, mas também alcançar excelente ritmo de corrida.  Além do mais, consegue ser agressivo quando precisa (era uma das suas fontes de  erro no início de carreira) já o credenciando como um dos grandes, mesmo na época  da McLaren. A habilidade de ultrapassar também é uma de suas marcas. Enquanto  bons pilotos sofrem nesse quesito, Lewis tem um leque de ferramentas que só não  fazem inveja a Ricciardo e Albon (sim, Albon era um dos melhores overtakers da  Fórmula 1). 

Mas o que o faz ser dominante como piloto não é segredo para ninguém: a gestão  dos pneus. Conseguiu alinhar velocidade com boa gerência dos desgastes que acaba  se tornando seu principal trunfo nas corridas. Isso exige uma sensibilidade fora do  comum e inteligência para o acerto do carro. Nesse quesito é imbatível. Os compostos  da Pirelli têm sido um desafio, visto que mantê-los sempre na estreita faixa de  temperatura ótima com boa velocidade não é tão simples. O próprio Vettel já  mencionou isso algumas vezes. Bottas não o vence principalmente por isso. Um  antigo engenheiro da McLaren explicou como no momento em que Lewis aceitou não  ser tão rápido para melhor gerir pneus, foi chave na carreira. Bom lembrar que Lewis  iniciou a carreira naqueles horríveis pneus estriados (ao meu ver uma das piores  ideias para a categoria) e foi se adaptando e evoluindo ano a ano, sem precisar mudar  seu estilo de frear em cima da curva e retomar aceleração antes. 

O olhar do muleque levado indicando que vai aprontar alguma (So 7 titulos e contando, alguém segura essa criança).

Origem 

Cada vez mais pilotos são preparados desde o berço. Verstappen é um bom exemplo.  Filho do ex-piloto Jos Verstappen, desde muito criança foi basicamente criado e  talhado para se tornar piloto (às vezes de forma controversa). Não só dispunha de um  tutor técnico, mas de um conhecedor dos caminhos para a principal categoria. E acima  de tudo, possuía recursos para tal, equipamento, dinheiro e contatos. Não à toa, Max  se tornou um fenômeno e é um dos melhores da atualidade. Um outro caso  semelhante (e que estamos todos na torcida que siga os caminhos de Max) é da piloto  Juju Noda de 14 anos, filha do ex-piloto Hideki Noda, atualmente na F4 dinamarquesa.  Assim como Max, foi treinada desde o berço, conquistando incríveis resultados contra  pilotos mais velhos e tem tudo para seguir o caminho do holandês. Também, por ter  um pai ex-piloto, possui todos os recursos para construir uma carreira planejada,  podendo treinar e focar exclusivamente no desenvolvimento técnico como esportista. Com Lewis, o contexto foi exatamente o oposto. Não era filho de ninguém ligado ao  automobilismo e tampouco tinha os recursos necessários para desenvolver uma  carreira tão cara na base. Mesmo assim, o pai de Lewis se dispôs a muitos sacrifícios  para impulsionar a carreira de Lewis permitindo que treinasse. Como o próprio já  comentou, corria com os piores equipamentos, diante de pilotos bem mais  estruturados. Mesmo assim conseguiu ser vitorioso. Lewis parece ter tido um talento  natural. Tinha tudo pra não dar certo num esporte essencialmente voltado para  ricos.Foi dessa forma que chamou a atenção de Ron Dennis, que permitiu que  assinasse um contrato com a McLaren ainda nos tempos do kart. O resto é história. 

Essas são as credenciais que fazem de Lewis Hamilton o maior piloto de todos os  tempos. Pode ser sim considerado um dos melhores da história, discussão essa  sempre tão espinhosa. Fora das pistas, assumindo um protagonismo na luta contra o  racismo, o colocou em outro patamar como esportista, partindo para o caminho de  lenda do esporte. Mentalidade de campeão, exemplo como esportista, não se abateu  nem quando foi derrotado por Rosberg. Pelo contrário, atingiu outro patamar depois  disso. E parece que por enquanto não tem fim, segue forte. Será vencido um dia, mas  jamais deixará de ser o que é: uma lenda.

4 comentários em “Respeite o Rei

  1. A estreia de Schumacher foi na Benetton, ao lado de ninguém menos que o tri-campeão Nelson Piquet, substituiu Roberto Pupo Moreno, participando de seis corridas naquele ano, 1991, não terminou 03 provas e nas outras 03 em que chegou ao final, duas foram a frente de Piquet, bem como classificou-se tres vezes a frente de Piquet nos treinos.
    1992, sua primeira temporada completa, foi terceiro colocado no mundial, atrás das duas imbatíveis Willians suspensão eletronica, deixando para trás Senna e a McLaren-Honda campeã no ano anterior.
    Sera mesmo Hamilton superior ao piloto alemão?
    Um abraço a todos.

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    1. Obrigado pelo comentario Antonio. Sem levar em conta momentos espetacurales em pista (que acho que Hamilton fez mais), digamos que pontos a favor do inglês foi ter companheiros mais fortes e raras vezes ajuda deles (como escudeiro, somente algumas vezes de Bottas em 2017 e 2018), ja o alemão na Ferrari sempre teve escudeiro explicito (exceto no ano que quebrou a perna). Outro ponto a favor do inglês é ele nao ter um titulo no minimo polêmico como o Schumacher teve em 94, isso para mim mancha a carreira do alemão um pouco (mas nao o faz pior tecnicamente).
      Os feitos de Schumacher na Benetton mostram que ele era um piloto fora do comum, acho que ai esta a diferença dos pilotos fora de série, ter esses momentos na sua carreira (por isso um Senna mesmo tri é sempre lembrado). Mas se o Schumacher venceu um Piquet em fim de carreira, o Hamilton fez o equivalente com o Alonso no auge. Enfim, todos esses momentos de destaque, Hamilton também fez algo equivalente, mas acho que fez mais, nas pistas e obviamente nos numeros.
      Abraços!

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  2. Seus argumentos são claros e factíveis, no meu entender Hamilton possui talento equivalente a pelo menos oito pilotos que ja passaram pela F1, circunstâncias o levaram aos recordes.
    Publiquei em Março 2020 no site autoracing, matéria intitulada “F1-O talento, a rivalidade, uma pole improvável”, onde pergunto se o piloto inglês é melhor que Ayrton Senna.

    “O melhor de todos os tempos”, axioma propagado e atinente à carreira de Lewis Hamilton, representante da estirpe dos grandes corredores, talento insofismável, porém, não poderá, jamais, usurpar a inexistente coroa de maior piloto da história. Será o inglês, por exemplo, superior a Ayrton Senna?
    Três décadas passadas… Alain Prost contrafeito a gradual evolução de Senna no time McLaren, inconfortável frente sucessivos embaraços que Ayrton lhe impunha nas demandas de pista, movimentou-se para desestabilizar a equipe. Complicava coisas simples, exigia mudanças na curva de potência dos motores Honda, a fim de torna-la mais suave, não tanto abrupta como se apresentava, segundo ele, bem ao gosto de Senna. Fez da imprensa europeia um canal para críticas, em especial a francesa.
    Píncaro das lamurias prostianas, aconteceu pós Jerez de la Frontera, justificando o terceiro posto, atrás de Senna e Berger, referiu-se ao seu carro como “Taxi McLaren”. Colocava, assim, nas entrelinhas, dúvidas quanto à lisura da equipe, induzindo algum tipo de favorecimento para o brasileiro.
    Povo de tradição e cultura milenar, os japoneses veneravam Senna como autêntico Samurai, respeito compartilhado por Osamu Gatto, diretor da Honda, bem como dos seus superiores no Japão. Um piloto que jamais se recusava a correr em condições adversas ou sob chuva, sem críticas a marca, incapaz de questionar honestidade nas decisões tomadas pela empresa.
    Paul Ricard, França, Julho de 1989, Alain Prost, depois de vencer (Senna abandonou na primeira volta), anuncia o fim da parceria com a McLaren. Especulações davam conta que seu destino estaria vinculado a Renault, quem sabe Willians, todavia o suspense terminou dias antes do GP italiano. Um contrato, válido por doze meses, contendo sessenta e cinco páginas, amplamente discutido entre advogados, solidificou a presença de Prost na Ferrari para o mundial do ano seguinte, 1990.
    “Gran Premio Coca-Cola D’Itália 1989”. Monza, pista veloz, situada em um parque meio a muito verde, verdadeira catedral para Ferrari, onde, todo ano milhares de fiéis devotados vão prestar homenagem e torcer pelo time do cavalo rompante. Até os sinos da igreja de Maranello, berço dos automóveis vermelhos, badalam anunciando as vitórias da equipe.
    Início de atividades, primeiros treinos, Prost, ainda de McLaren, recebe faixas de boas vindas, Mansell e Berger com Ferrari, estrondosos aplausos, Senna a fúria dos fanáticos torcedores. Vale lembrar que os tempos obtidos na sexta-feira contavam para formação do grid.
    A prática segue morna, carros girando entre 1.26 e 1.27, Mansell resolve colocar lenha na fogueira, marca 1.24.768, reduz ainda mais, 1.24.739, festa nas arquibancadas, Ayrton vaiado não consegue baixar de 1.25.021, perto do final, Berger fantástico, supera seu companheiro, 1.24.734. Explosão de alegria e júbilo entre os tifosis.
    Se Deus é brasileiro, São Pedro deveria ser cupincha do padre de Maranello, mandou muita chuva durante a madrugada para região norte de Milão, lavando o asfalto de Monza. Conclusão, pista mais lenta, praticamente garantida uma primeira fila da Ferrari.
    Sábado, autódromo lotado, cada vez que Berger ou Mansell embocavam na saída dos boxes, delirantes aplausos, mesma intensidade os apupos para Senna. Segue o dia, próximo ao término da sessão, os tempos da sexta-feira permanecem imutáveis, as Ferraris recolhidas à garagem, descansam sobre os louros de incerta vitória.
    Ayrton aquece os pneus, pouco mais de um minuto para o fim das atividades, contorna veloz a Parabólica, ganha embalo para início do giro cronometrado, zarpa célere, sobe em zebra, belisca grama, mais uma daquelas voltas voadoras, imprevisíveis.
    Primeira parcial, o locutor, antes deveras entusiasmado, mostra preocupação: “McLaren più veloce di Berger”. Segunda parcial, agora o tom é quase fúnebre: “Senna continua più velocemente”. Na plateia silêncio, no circuito a sinfonia estrondosa dos dez cilindros Honda e nas mãos do maestro a pole espetacular 1.23.720, mais de um segundo frente Berger (1.24.734), quase dois segundos para Prost, quarto colocado (1.25.510).
    O francês reúne jornalistas, visivelmente irritado: Dois segundos, isso não existe, tem alguma coisa diferente no carro do Senna, acho que nem chegarei ao Japão e Austrália (Na época fechava a temporada).
    Aqui, retomo a pergunta formulada no início: Será Lewis Hamilton melhor que Ayrton Senna?
    Antonio Carlos Mello Cesar.

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    1. Meu amigo, você quer arrumar confusão com essa pergunta, kkkkkkkkk. Mas essa tua frase resumiu bem, super talento o inglês tem como grandes feras da historia, multicampeonanto é circunstacial. Por isso os numeros nao sao suficientes pra considerar o melhor. Muito massa essa historia ai, esses momentos que eu digo que o cara mostrar porque ele é fora da curva. O Senna é lenda, porque ele tem varias dessas.
      Bem, mesmo com essa pergunta pecadora e levada, aqui ninguém fica em cima do muro, o melhor foi Senna e nao vou nem atras de fundamentaçao, vou no pacional mesmo, kkkkk. Mas vou tranquilo porque sei que o Sir Lewis Hamilton concordaria comigo.

      Abraços

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